INDICADOS AO OSCAR 2017 DE MELHOR FILME: DO PIOR AO MELHOR


Domingo de carnaval, dia 28, enquanto outros estarão comprometidos com a folia da data, alguns como eu, estarão ansiosos para assistir o Oscar 2017. A mudança nos membros votantes da Academia deu certo e se compararmos aos indicados do ano anterior, perceberemos uma notória diversidade nas produções e nos artistas indicados. Para quem não lembra, ano passado teve a campanha #OscarSoWhite após não ter nenhum ator negro indicado em nenhuma das quatro categorias de atuação. A polêmica obrigou a Academia a reformular seus critérios de avaliação e alguns membros votantes. Resultando assim, em indicações, e por consequência a principal função do Oscar, a valorização de produções independentes com temáticas pertinentes à um país governado por Donald Trump, como: imigração, mulheres negras em ambientes racistas e machistas, direitos LGBT, superfaturamento de agências bancárias, o pacifismo em contraponto à um cenário de guerra e a valorização de artistas - até porque sem eles, não teríamos como contar essas histórias fantásticas.


Dos palcos da Broadway para o cinema. A adaptação da peça homônima, no original "Fences", de August Wilson, é dentre os indicados o mais esquecível. Porém, existe dois componentes memoráveis na história dirigida por Denzel Washington: o roteiro brilhante, verborrágico e carregado de verdades oprimidas pelo conformismo de uma vida a dois e a atuação de Viola Davis, que certamente já garante seu Oscar dessa vez. Denzel, que também é a estrela do longa, entrega uma atuação digna mas é completamente ofuscado pela personagem de Viola, que trás na sua personagem o amargo de viver atrás de um homem que por vezes não reconhece a grande mulher que tem. E isso absolutamente foi o que mais me incomodou no filme.


Baseado na história real do soldado Desmond Doss, o primeiro Opositor Consciente a receber uma medalha de honra americana, apesar de fazer homenagem à incrível jornada de seu protagonista, cai na armadilha do ego patriota em contar apenas o lado americano, como sempre, a dos "mocinhos" que protegem o mundo. Andrew Garfield (o Homem-Aranha para quem não lembra!) é o grande destaque do filme em uma entrega total ao seu personagem, que recusa a pegar em armas em um cenário drástico de violência e ódio. O diretor Mel Gibson mostra que sabe melhor fazer um épico de guerra, como nas cenas de corpos incinerados e mutilados em quase 40 minutos de brutalidade visceral, do que em desenvolver subtramas como a visão que os americanos têm de seu inimigo, ficando por vezes preguiçoso em um roteiro amador.


Dois irmãos, um ex-presidiário e um pai divorciado, assaltam bancos para se restabelecerem financeiramente após a fazenda da família ser tomada por dívida e taxas de juros. Ilustrando de imediato o preconceito do povo texano por eles considerados "mestiços", "índios" e "mexicanos", "A Qualquer Custo" curte uma doce ironia ao ver os ianques sofrendo nas mãos dos bancos, que lhe tiram as terras da mesma forma que estes as tiraram de outras tribos no passado. A presença do poder econômico como um vilão sedutor é sentida durante toda a projeção, que enfatiza os anúncios publicitários de bancos oferecendo empréstimos imediatos e fáceis, omitido sempre a taxa de juros. Nesse sentido, o moderno faroeste funciona como um porta-voz para os americanos menos favorecidos e nos lembra que nem tudo são rosas na "terra das oportunidades".


Apesar da história de três mulheres negras terem contribuído muito para que a NASA conseguisse colocar um dos primeiros homens no espaço, mesmo sofrendo inúmeras resistências por causa de sua cor de pele e por estarem também em um ambiente machista, ser fantástica por si só, "Estrelas Além do Tempo" comete um erro considerável em uma biografia digna de filme: a pieguice. Fica notório a artificialidade de certos eventos na intenção de comover o espectador, não confiando no seu poder narrativo e verídico. Porém, a história merece ser contada e conhecida. E este é o principal valor do filme.


Impactante, crú e realista. "Manchester à Beira-Mar" é um filme que incomoda desde os primeiros minutos. O jogo construído pelo diretor te puxa e te afasta do filme a cada cena. Os diálogos, principalmente nas cenas menos infelizes, reverberam no resto da história e pontos são pinçados de maneira a questionar o protagonista e revelar o grau de sofrimento e dor que guarda para si e afeta diretamente sua relação com os outros. O luto está no rosto de Casey Affleck, paralisado e sem palavras, apesar da inexpressividade de seu personagem, o ator convence em cada segundo sua atuação fantástica e digna de todos os prêmios possíveis. Não é um filme preocupado em agradar o espectador. O objetivo aqui é mostrar a realidade de continuar vivendo mesmo tendo morrido um pouco por dentro. E de uma forma tão visceral e honesta, vinda de uma produção Hollywoodiana, o filme está acima "do que se pode esperar".


Outra biografia digna de filme indicado ao Oscar, aqui temos o menino indiano Saroo que se perde da família na Índia após entrar em um trem e acabar em Calcutá, onde está a mais de mil quilômetros de casa. Sua vida melhora após ser adotado por um casal australiano, obstinados a conceder uma vida melhor ao garoto. Apesar de sua confortável vida já em fase adulta, Saroo (Dev Patel) não se conforma em não encontrar sua família e tenta imediatamente procurá-los. O contraste do filme, primeiro focando na infância miserável do garoto ambientada na Índia e em Calcutá até a privilegiada vida na Austrália, é muito bem construída pela direção de arte a ponto que cumpre um certo poder narrativo de conceder a quem assiste a compreensão sobre os questionamentos do protagonista, que embora tenha uma vida privilegiada no momento, não abre mão de reencontrar suas origens e de lembrar quem foi. Arrastado no meio, mas brilhante no começo e no final, "Lion" destrói seu coração mas promete remendá-lo depois.


Para começar, eu assisti esse filme sem ler nenhuma sinopse ou crítica e isso foi fundamental para a percepção que tive ao assisti-lo. Portanto, creio que devo fazer o mesmo para quem estiver lendo para que, quem sabe assim, sua versão do filme seja tão boa quanto foi a minha. "Moonlight" deveria ser obrigatório e repassado às escolas primárias. É um soco no estômago, uma pancadaria na alma. Um menino com potencial que foi surrado e excluído até se transformar no esteriótipo que a sociedade quer ver: o homem negro marginalizado. Mas ainda assim o filme foge do previsível, introduzindo personagens atípicos de seus rótulos e modificando a trajetória de vida, renegada e escondida, do protagonista Chiron.


A unidade do tempo e sua multidimensionalidade provocando no espectador o significado da finitude da vida. Unindo ficção científica com drama existencial, "A Chegada" consegue o destaque primordial ao mote comum na Hollywood dos "blockbusters".  Embora o filme apresente algumas cenas de ação e excelentes efeitos visuais, tais recursos servem fundamentalmente para ilustrar a narrativa cujo o cerne passa distante de invasões alienígenas, explosões reiteradas ou a destruição em massa de cidades. Trata-se de uma proposta de edificação humana, e não destruição. Utilizando contar uma história não-linear, o filme tenta emitir o completo papel do ser humano como uma "arma" ou "agente de mudança" e o põe no centro de importância universal, como catalisador de seu próprio destino. Petulante, sem dúvida, porém primorosamente poético.


Fecho meus olhos e lembro da maioria das cenas de "La La Land". Esse é o maior legado de um promissor clássico e não tenho dúvidas que o grande queridinho das premiações deste ano irá se tornar um. Ambientado em Los Angeles, "a cidade dos sonhos", logo somos introduzidos a intensidade dos jovens promissores em busca de seus ambiciosos sonhos, em um ritmo singular da música enervante de abertura "Another Day of Sun". Mia (Emma Stone) deseja tornar-se atriz e trabalha em uma cafeteria dos Estúdios Warner. Sebastian (Ryan Gosling) quer abrir seu próprio bar de jazz, acreditando que a música contemporânea está carecendo. Dois jovens, dois sonhos. Presos em uma cidade prometida que existe muito talento para disputá-la. O musical romântico de Damien Chazelle não é apenas sobre buscar seus sonhos, ou tampouco sobre o amor. É sobre os dois disputando espaço em um coração jovem. Chazelle, que sempre trás forte referência da música em seus filmes, concedeu-nos um leque de canções memoráveis nas mais recorrentes variações de sentimentos dos protagonistas, que representam o "eu interno" em cada um de nós. Que nada mais é do que: queremos ser vistos por alguém na multidão (como a maravilhosa canção "Someone in the Crowd") porém precisamos primeiro estar prontos para sermos encontrados.

TOP 10 MELHORES FILMES DE 2016


Mais um ano termina, outro começa. E com isso, nos trás a sensação de reflexão do que fizemos durante o ano todo e do que ainda queremos fazer no próximo. 2016 se tornou um ano para aqueles que resistem, daqueles que ainda estão dispostos a dar a cara para bater e daqueles que aprenderam a não ter medo da difícil arte que é viver.
Apesar dos complicados cenários políticos e pessoais a parte, o cinema, como sempre, chega ao espectador como forma de refúgio, de sabedoria, de criação e de crítica. 2016 nos trouxe um excelente leque de filmes de terror - gênero defasado por anos de roteiros fracos - filmes independentes com estrelas promissoras e filmes com temáticas diferentes para abrir a cabeça de uma sociedade ainda muito "careta".
Então, vamos conferir os 10 melhores filmes de 2016 que tive o prazer de assistir, considerando sua estreia no Brasil.

Obs: filmes como "A Chegada", "Doutor Estranho" e o novo do Star Wars ainda não consegui assistir, portanto, releve sua ausência.


Como suspense, "O Homem nas Trevas" jamais consegue errar. Possui uma narrativa envolvente e tensa que se sobrepõe, felizmente, aos clichês do gênero, e é parcialmente bem conduzida até o final. Possui um arquétipo interessante sobre "quem realmente é o vilão?" e uma edição precisa, que utiliza por exemplo cenas escuras para revigorar o poder do protagonista cego e consequentemente, do público. Metaforicamente, seu título original em inglês "Don't Breathe" é talvez a única saída para sobrevivência de certos personagens, assim como a reação natural para quem assiste.


"Aquarius" causou polêmica por ser acusado de apoiar a corrupção, principalmente depois do elenco e do diretor, Kleber Mendonça Filho, protestar no Festival de Cannes de 2016 contra o golpe de Michel Temer. Polêmicas a parte, o grande filme brasileiro do ano é uma crônica urbana simplista com sutis críticas sociais centrada em Clara (Sônia Braga) que não se encaixa em um mundo atual que não respeita o legado do passado. Sônia Braga entrega uma performance complexa, em um balanço entre mulher forte e resiliente com uma sensibilidade trazida pelas memórias de sua personagem, seja pelo espaço em si, seja por uma música ou um simples objeto.


Um exemplo perfeito sobre como pegar um clássico - criado por "Tubarão" de Steven Spielberg - e mesclar com elementos de nossa geração - já utilizado pelo diretor - em mostrar conversas da protagonista Nancy (Blake Lively), isolada em uma praia paradisíaca, com familiares via rede sociais, mostrando seu luto pela recente morte de sua mãe e seu objetivo em estar ali como uma forma de homenageá-la. No entanto, é atacada por um tubarão e seu terror começa, trazendo sua necessidade de sobrevivência assim como sua mãe durante anos lutando contra o câncer.


O filme que trouxe o suado Óscar de Melhor Ator à Leonardo DiCaprio e o segundo Óscar consecutivo ao diretor Alejandro G. Iñárritu, "O Regresso" apresenta estruturas épicas em seus cenários e produção técnica graças a ideia megalomaníaca do seu diretor. Contudo, o roteiro é simples: um homem tentando sobreviver a uma forte nevasca em busca de vingança. Mas o segredo aqui é a forma de execução, exemplificando a famosa cena do urso que ataca o protagonista, é apenas um dos primorosos exemplos de um filme que já nasceu como um clássico.


Pragmatismo versus erudição. Modernidade versus retorno à "vida simples". "Ser" versus "ter". O filme de Matt Ross intencionou expor o choque de realidades pertinentes ao mundo contemporâneo. No entanto, os assuntos mais espinhosos são entremeados por um humor que os suaviza e de uma emoção cativante onde tudo que importa é estar ao lado dos "seus", antes mesmo do que qualquer ideologia. Interessante destacar também, a peculiar família construída por um hippie marxista e seus filhos doutrinados, sem contato direto com o mundo "civilizado" (vamos escrever a-s-p-a-s) através de um roteiro que jamais fica ridículo mesmo sendo insano.


Antes de qualquer coisa, queria dizer: a trilha sonora deste filme ecoa em minha cabeça como se fosse recente e eu o assisti na época da temporada de premiações. Mas "Carol" não é somente um ótima reconstituição dos anos 50, duas atuações femininas poderosas e a temática LGBT. Não trata da homossexualidade como catalisador da trama, mesmo tendo a questão do preconceito personificado principalmente no ex-marido chantagista, Carol (Cate Blanchett rainha) nunca usa desse pretexto para desenvolver a relação com seu novo amor: Therese (Rooney Mara). E é nesse contexto que sobretudo é um filme sobre o amor, e não a dificuldade em vivê-lo.


A versão neozelandesa do Wes Anderson, só que engraçada. O filme nos presenteia com um humor inteligente e, em dados momentos, pouco convencional, que nos deixa aliviados e restaura a nossa fé em comédias modernas. Além da carga humorística, "A Incrível Aventura de Rick Baker" trata de assuntos mais profundos, dando aos seus protagonistas um sentido a vida e uma noção de família, afeto e companheirismo. Rick (Julian Dennison) de amargurado por ser órfão e largado por várias famílias, se torna cativante e esperançoso a medida que estabelece o que sempre desejou: um companheiro para suas aventuras.


Importantíssimo o espaço, ainda que seja modesto, que as premiações hollywoodianas estão deixando filmes independentes terem e portanto, presenteando o público mainstream com filmes fortes e bem realizados como "O Quarto de Jack". Thriller psicológico adaptado do livro homônimo, que retrata de forma única uma vida de privação e a pressão absurda de adaptação através do menino - nascido em um quarto de poucos metros quadrados - e sua mãe - que sabe que existe um mundo lá fora e que lhe foi tomado repentinamente. Além da recente liberdade, ter sua vida invadida pela mídia e centenas de curiosos, assim como o preconceito de seus próximos.


O sul-coreano "A Criada" sempre está um passo a frente de seu espectador. Em uma edição precisa, o filme nos engana diversas vezes e nos concede vários plot twist, fora e dentro do filme. Com requintados figurinos nipônicos e referências clássicas ocidentais, temos no centro três figuras misteriosas: uma herdeira rica, sua criada e um homem que deseja casar-se e se dar bem. A partir disso, como sou anti-spoiler, não há o que dizer mais. Além, claro, de seu irresistível poder erótico e de sua descontextualização do desejo mais secreto em todos nós.


Nunca imaginei que um dos meus filmes favoritos, não só do ano, seria sobre invasão zumbi. Mas ao misturar elementos do gênero de forma direta como o público alvo almeja, engana-se quem pensa que o filme possa ser definido apenas como tal. Um pai, não muito presente, decidi viajar de trem com sua filha até a casa de sua ex-mulher. No entanto, assim como os outros passageiros, não percebeu que o país foi aos poucos caindo com uma recente invasão de mortos-vivos. E quando apenas uma passageira está contaminada, o caos se propaga. Entre duas horas de duração, o longa sul-coreano possui excelentes cenas de ação, muito sangue e uma forte carga emocional, reconstituindo ligações perdidas e ensinando o poder de fazer o bem.

10 FILMES PARA ASSISTIR NO HALLOWEEN


Halloween está quase acabando, mas decidi preparar uma lista para quem quer curtir esta época do ano até o fim, nem que seja deitado olhando um bom filme. Obviamente que os filmes de horror não poderiam ficar de fora, mas para quem realmente não curte o gênero, também têm sugestões de outros, que de certa forma abraçam o clima de Halloween. Então, venha conferir uma vibe gótica trevosa! FELIZ HALLOWEEN!!!


A chegada de "Invocação do Mal" em 2013 revigorou o subgênero de casa mal assombrada e se consolidou como um dos maiores títulos de filmes de horror da última década. Consagrado pela crítica (86% no Rotten Tomatoes e 68 pontos no Metacritic) e pelo público (mais de 300 milhões de dólares de bilheteria), o filme conta a história do casal Warren, investigadores de atividades paranormais, chamados pela família Perron para conduzirem uma investigação ao qual certamente será necessário um caso de exorcismo. Aclamado como um filme do gênero acima da média, especialmente nos últimos anos, se diferenciando pelo forte elenco - em especial à Vera Farmiga que vive a clarividente Lorraine Warren, a cinematografia opaca e envelhecida que remete à uma filmagem dos anos 70, um bom desenvolvimento de relações entre a família e o casal protagonista, a criação da atmosfera do terror - não caindo em tentações fáceis como "jump scare" (sustos rápidos) - em um roteiro coeso e bem estruturado que garantiu este ano uma continuação.



Certamente toda criança nascida nos anos 90 já assistiu inúmeras vezes este clássico na Sessão da Tarde. E não há filme infantil que mais me remete ao Halloween do que este divertido musical estrelado por Bette Midler, Sarah Jessica Parker e Kathy Najimy. As três bruxas de Salem, após trezentos anos de suas mortes por enforcamento devido a prática de feitiçaria, retornam através da maldição que lançaram sobre a cidade para que consigam retomar suas imortalidades. Possuindo todos os clichês da data, como um gato preto enfeitiçado, a cativante "Spell on You" cantada por Bette Midler, o figurino inesquecível, as atrapalhadas aventuras que enfrentam para conseguir seus objetivos, provam que o Halloween não é somente horror e sustos, é também doces e travessuras.



Seria quase um insulto fazer uma lista sobre filmes de Halloween e não listar o filme que influencia até hoje o gênero de terror, como também consagrou o subgênero de slasher (assassinos mascarados) copiado por gerações até hoje. Michael Myers - juntamente com Fred Krueger, Jason, Leatherface e Ghostface de "Pânico" - foram os responsáveis pelos grandes clássicos a partir do final dos anos 70, atingindo o auge nos anos 80 e propiciando sátiras nos anos 90 ("Pânico"). Com uma trama bem simples, um psicopata mascarado que vai apunhalando e estrangulando as vítimas de uma pequena cidade, uma protagonista que sempre consegue escapar (Jamie Lee Curtis como a original "Scream Queen"), a morte de adolescentes bêbados que correm atrás de sexo, a menina que entra no porão ou na garagem (e a gente torcendo para que morra por tamanha burrice!) e é claro, a inconfundível trilha sonora. Todos os clichês do gênero foram estabelecidos aqui e nem preciso dizer que quase 40 anos depois ainda enxergamos resquícios de sua influência.



2016 está sendo um ótimo ano para os filmes de terror. E o terror, com seus incontáveis subgêneros, foi amplamente explorado este ano por excelentes produções, como: "A Bruxa" - religioso, subjetivo e provocativo; "Hush: A Morte Ouve" - ótima abordagem aos clássicos filmes de invasão domiciliar; "Rua Cloverfield 10" e "O Convite" - trabalha bem elementos de terror especulativo; "Invocação do Mal 2" - é uma rara continuação que faz jus ao original; "Águas Rasas" -provou que ainda é possível fazer um filme de tubarão sem cair na paródia. Porém, meu favorito nesta rica produção de filmes do gênero este ano, é a tensão e o medo criado pelo excelente "Quando as Luzes se Apagam". Explorando como tema central o "medo do escuro", e criando a partir disso a antagonista principal - Diana, portadora de uma rara deficiência ao qual não pode pegar luz - o filme cria uma sucessão de sustos, sem cair em um roteiro preguiçoso. E como 2016 está sendo ótimo para os amantes de filmes de terror, acho pertinente mencionar meu favorito.



Amelia (Essie Davis) cria seu filho sozinha após a morte de seu marido no dia do nascimento dele. Infeliz e sozinha, o sentimento da protagonista é espelhado na atmosfera do filme que te imerge em uma névoa de luto e pesar desde seu começo. Sua relação com o filho é extremamente complicada, particularmente pela personalidade do menino ser conturbada e até esquizofrênica. Em uma noite, o menino escolhe um livro chamado "Mr. Babadook" para que ela conte antes dele dormir. A partir da leitura do livro, coisas estranhas começam a acontecer na casa e consequentemente na vida dos dois. O melhor exemplo que nem sempre um bom filme de terror está associado à sangue, morte e mutilações. Aqui o terror é aos poucos, especulativo, subjetivo e acima de tudo, psicológico. E gradativamente, consegue se perceber que o pior tipo de monstro não é aquele visto em filmes, lidos em livros ou nos contos. É aquele que vive em você.



O primeiro sucesso estrondoso na história dos filmes de horror, teve grande influência sobre o futuro do gênero. Nunca, até então, um filme de terror tinha sido objeto de tamanha atenção de seu lançamento. É difícil transmitir o verdadeiro impacto cultural de "O Exorcista". O filme desafiou regras do que até então poderia ser mostrado no cinema, sua audácia ao satirizar a igreja católica e suas constantes cenas memoráveis que consagrou o rosto de Linda Blair, possuída pelo demônio, como a primeira imagem que representa o gênero como um todo. Talvez o responsável pelo maior medo que espectadores têm ao subgênero de demônios e espíritos. Sucesso absoluto de público (mais de 400 milhões na época) e crítica (10 indicações ao Óscar), eu não poderia negligenciar seu legado avassalador.



Baseado em supostos fatos reais, o diretor Bryan Bertino afirmou que se inspirou nos assassinatos de 1969 cometidos pela Família Manson e nos assassinatos de Keddie, ocorridos em 1981. O típico subgênero de "invasão domiciliar" é explorado no filme, quando o casal Kristen (Liv Tyler) e James (Scott Speedman) chegam à remota casa de veraneio dos pais de James após uma noite difícil, e aos poucos percebem a presença de três estranhos ao redor da casa. Os assassinos mascarados - influência dos filmes de slashers - brincam com as vítimas aos poucos, até o auge de suas resistências físicas e psicológicas. Seu terror aqui está tanto nos seus ataques diretos, como nas remotas aparições de um dos assassinos, contribuindo ao colapso de pânico e terror causado nas vítimas. E apesar de inúmeros ataques e sustos, o mais aterrorizante é descobrir o verdadeiro motivo daqueles estranhos estarem ali.



Até assistir "Coraline e o Mundo Secreto" eu não imaginava que seria possível sentir certo 'medo' ao assistir um filme de animação. E o diferencial de outras animações góticas, como "O Estranho Mundo de Jack" e "Noiva Cadáver", ambos de Tim Burton, e "ParaNorman", é seu o conteúdo adulto e sombrio. Não sombrio retratado apenas na cinematografia, em tons escuros e fúnebres, mas sombrio no perigo que é desejar ter uma vida perfeita. Entediada em sua nova casa, Coraline encontra uma porta secreta. Através dela tem acesso a outra versão de sua própria vida, porém a diferença é que neste outro lado tudo parece ser melhor, inclusive a relação com as pessoas que convive. E o contraste de cores vivas no mundo perfeito com tons mais escuros no seu mundo real, é uma excelente metáfora de sua depressão e tédio, em uma tentativa desesperada de refúgio. E obviamente, o filme não estaria aqui se não fosse por suas cenas macabras, dos inesquecíveis olhos-de-botão até a vilã que se revela aos poucos.



Apesar de ser oficialmente classificado como filme de terror e suspense, acredito que "Drácula de Bram Stoker" está mais intimamente ligado à um romantismo clássico com bons elementos de terror. Dirigido pelo renomado Francis Ford Coppola (responsável pela trilogia de "O Poderoso Chefão"), o filme conta a história do líder romeno Vlad Tepes (em uma atuação inesquecível de Gary Oldman) traído pela igreja que renega Deus e por seu castigo é condenado a "sede eterna" (vampirismo). Buscando a reencarnação de sua amada, Drácula não mede esforços para sentir novamente o aroma e o sangue daquela que acredita ser sua noiva, Mina, nesta vida chamada de Elizabetha (Winona Ryder). Considerado por muitos, e por mim, como o melhor filme de vampiro já feito, todos os elementos ligados ao icônico personagem estão aqui. Monstros saindo à noite, sujeitos ao grande lorde dos vampiros, acatando quer for necessário. Sua relação com a igreja e seu charme irresistível perpetuam na mente dos amantes de um bom clássico.



Confesso que não é meu filme favorito da lista, mas está no topo por uma simples razão: apesar de ser feito em baixíssimos orçamentos, no início dos anos 70, sem qualquer efeito de computação gráfica que hoje qualquer filme de terror utiliza, esse filme continua sendo, após 40 anos, assustador e horripilante. É um raro feito e merece estar em destaque. Leatherface, o assassino da serra elétrica, é o primeiro slasher de Hollywood e abriu caminhos para o subgênero para sempre. Seu ritmo frenético e estilo quase documental, gerou o título de "um dos filmes independentes mais lucrativos da história do cinema". A corrida aparentemente infinita que o vilão faz ao perseguir a última sobrevivente do filme, ao qual diversas vezes parece logo conseguir ataca-lá, é tão fresca na memória quanto o barulho que a serra emite. Considerando-o, sem medo de errar, um dos filmes de terror mais assustadores já feitos.